O
brinquedo da criança - cuidados
a ter
Que
papel têm os brinquedos na formação
infantil? Como escolher os brinquedos próprios
para cada idade? Brinquedos violentos conduzem,
obrigatoriamente, à violência
infantil? Como devem agir os pais e educadores
perante estímulos violentos dirigidos às
crianças?
Entrevista à psicóloga
Sandra Nascimento, dirigente da Associação
Portuguesa para a Segurança Infantil
(APSI).
Qual
a função do brinquedo na educação
e formação infantil?
Há uma
expressão muito engraçada que
a secretária geral da nossa associação
costuma utilizar: "A profissão
das crianças é brincar, e a principal
ferramenta delas é o brinquedo".
O brinquedo é um dos meios que elas
têm para explorar o mundo que as rodeia,
os seus limites, experimentar as suas condutas, é um
meio de imaginação. Assume um
papel muito importante, no sentido em que é através
do brinquedo que a criança vai experimentar,
se vai relacionar com os outros e com o mundo.
Há um
tipo de brinquedo adequado para cada idade ou fase de desenvolvimento?
Para
as crianças, os brinquedos não são
o mesmo que para nós. A utilização que os
mais pequenos dão ao brinquedo nem sempre é aquela
para a qual foi concebido e que vem nas instruções.
Para eles até um tacho da cozinha pode ser um brinquedo,
muito mais bonito e interessante do que aquele que vimos na loja
e que achámos o máximo. Assim, tudo é um
brinquedo.
Naturalmente, devemos ter o cuidado de escolher o brinquedo de
acordo, não só com o estado de desenvolvimento
da criança, a sua idade, mas também as suas características
individuais. Há crianças que preferem brinquedos
de utilização individual, outras gostam mais de
actividades de grupo, muito ou pouco estruturadas. O que é importante,
na escolha do brinquedo, é pensarmos na pessoa a quem
ele se destina, e não naquilo que nós, pais, achamos
interessante. É necessário olhar o mundo através
dos olhos da criança, pensarmos naquilo que será mais
aliciante para ela, que esteja adaptado às suas capacidades.
Se escolhermos um brinquedo que é muito difícil
para a criança, arriscamo-nos a que ela tente usá-lo
e, na incapacidade de o compreender e executar as tarefas que
lhe são propostas, acabe por perder o interesse e não
gostar do brinquedo.
Por outro lado, um brinquedo demasiado fácil nem chega
a motivar a criança. Por isso, é importante que
envolva um desafio e também uma certa dose de risco. A
APSI, ao promover a segurança infantil, não procura
eliminar totalmente o risco da vida da criança. Isso não
seria saudável, uma vez que estaríamos a expô-la
a um mundo pouco real. A criança deverá ser confrontada
com situações de risco calculado e moderado, que
ela consiga facilmente percepcionar enquanto tal, que lhe permitirão
ensaiar condutas e desenvolver competências para lidar
com situações de risco.
Devem-se
respeitar, portanto, os graus de desenvolvimento infantil?
O
desenvolvimento das crianças segue uma sequência
de fases ou etapas, durante as quais elas vão desenvolvendo
competências e capacidades diferentes, (cognitivas, afectivas,
motoras). No entanto, cada criança é um caso, tem
os seus próprios ritmos e características individuais,
que devem ser respeitados na escolha dos brinquedos: o gosto
pelo desenho, pelas construções, por actividades
mais estruturadas. Não devemos forçar a criança,
devemos apenas desafiá-la, dentro dos seus limites, e
respeitar as suas preferências. Em termos desenvolvimentistas,
são muito ricas as actividades pouco estruturadas já que
permitem à criança dar asas à sua imaginação
e criatividade. Os brinquedos de construção, por
exemplo, dão espaço à criança para
ir além daquilo que é proposto, criando histórias
e personagens que a vão ajudar a relacionar-se com os
outros e a comunicar com o mundo.
Há alguma relação entre os brinquedos violentos
- imitações de armas, jogos de vídeo, a
própria televisão - e os comportamentos violentos
de certas crianças?
A
violência dos brinquedos poderá ser abordada
de duas formas. Por um lado, expor a criança a riscos
que ela não compreende e com os quais não sabe
lidar, é uma forma de violência. Os brinquedos são
objectos feitos especificamente para elas, não deveriam
ser objectos causadores de lesões e traumatismos. Por
ano, acontecem cerca de 1500 acidentes com brinquedos que, claramente,
não têm em conta as características das crianças
a quem se destinam. O próprio ruído emitido pelo
funcionamento de alguns brinquedos, que pode levar à surdez
parcial ou total e permanente, bem como provocar alterações
comportamentais no próprio, ou nos que estão perto,
também pode ser entendido como uma forma de agressão.
Por outro lado, o conteúdo violento dos brinquedos é outra
coisa que nos deve preocupar. É incrí- vel a quantidade
de violência a que as nossas crianças são
expostas diariamente, muitas vezes sob a nossa vigilância.
Inúmeros estudos confirmam uma correlação
entre a quantidade de exposição de uma criança
a conteúdos violentos e a sua atitude em relação à violência.
Mas, como é obvio, a violência não resulta
apenas de um factor isolado, mas de inúmeros factores,
designadamente, a envolvente sócio-económica, a
envolvente familiar, as características individuais da
criança ou jovem, o grau de exposição a
conteúdos violentos, que a podem predispor mais para este
tipo de comportamentos. Os CD-Roms e outros jogos interactivos "violentos",
os brinquedos semelhantes a armas e a exposição
excessiva e continuada a situações violentas podem
provocar a familiarização da criança com
a violência e os comportamentos agressivos, promovendo
a utilização destes, por exemplo, na resolução
de conflitos. Por exemplo, face a jogos que sistematicamente
recorrem à violência como forma de lidar com diferentes
situações, a mensagem que a criança "entende" é que
se pode resolver situações difíceis ou de
conflito com agressão e que se pode mesmo ser recompensada
por isso. Teme-se mesmo, segundo um estudo da American Psychological
Association, que os jogos interactivos promovam mais facilmente
comportamentos agressivos, já que a interactividade facilitaria
a identificação com os personagens e com os seus
comportamentos. Isto é verdadeiramente preocupante se
pensarmos que a própria finalidade dos jogos chega a ser,
por vezes, perversa. Quando o objectivo último e principal
do jogo é agredir pessoas, atropelar e até matar,
o resultado não pode ser positivo. É realidade
virtual, mas em determinadas fases de desenvolvimento, a criança
não distingue o real do irreal.
Qual
deve ser a intervenção dos pais e educadores
nesse domínio?
Convém limitar, sem vedar, o acesso da criança
a certo tipo de estímulos violentos. É necessário
controlar os conteúdos e o tempo de exposição à televisão,
participar activamente na escolha dos jogos interactivos e dos
brinquedos que contêm alusões a armas. Não é possível,
nem desejável, fechar a criança numa redoma, num
mundo artificial. O contacto com a realidade é importante
para a aquisição e desenvolvimento de comportamentos
e competências para lidar adequadamente com a violência. É importante
a presença de um adulto enquanto a criança assiste
aos programas de televisão ou joga computador, discutir
com ela os conteúdos, as consequências deste ou
daquele comportamento, chamar-lhe a atenção para
os efeitos da violência.
O exemplo dos adultos é importantíssimo. Não
vale a pena dizer que não se deve agredir os outros quando
nós próprios reagimos com violência em muitas
ocasiões.
Que conselhos daria aos pais na escolha dos brinquedos?
É essencial que o brinquedo seja seguro. Até aos
três anos, os pais têm de ter cuidados redobrados
porque a principal forma que a criança tem de explorar
o mundo é levando os objectos à boca. Brinquedos
ou partes de brinquedos que tenham uma dimensão inferior
ao diâmetro de uma moeda de 50 escudos poderão ser
engolidos pela criança, levando à asfixia.
Os pais deverão verificar se o brinquedo possui a marcação
CE, que é apenas uma presunção de conformidade
com a norma, mas que pode ser útil como indicação. É imprescindível
verificar se tem partes facilmente destacáveis, pêlos
que se soltam facilmente, puxando e testando antes de dar o brinquedo à criança. É preferível
que estas partes fiquem nas mãos do adulto do que na garganta
da criança. Há que verificar as arestas do brinquedo,
se são susceptíveis de provocar cortes ou outras
lesões.
Por fim, é obrigatória a indicação
em português da idade a que se destina o brinquedo, bem
como o nome e contacto do representante em Portugal. As instruções
e precauções devem também encontrar-se em
Português. Todos estes factores devem ser verificados,
e se algum não estiver conforme, pode ser indicação
de outras anomalias.
É
importante verificar se crianças com menos de três
anos têm acesso aos brinquedos dos mais velhos, que não
lhes são destinados. Com as crianças mais velhas,
há que ter precaução com todos os brinquedos
que impliquem movimentação, como as pistolas de água
ou as flechas, visto que, ao serem arremessados, adquirem mais
força do que a que normalmente têm. Ainda em relação
aos mais velhos, quando andam de skate, patins ou bicicleta,
devem fazê-lo com dispositivos de protecção
adequados. É preciso ter em atenção que
existem alguns brinquedos no mercado, que simulam estes equipamentos,
mas que não oferecem a protecção necessária.
Relativamente aos outros aspectos, é importante que o
brinquedo escolhido tenha interesse lúdico para a criança,
seja flexível, e permita que ela ponha em prática
toda a sua criatividade e imaginação. Deve, ainda,
ser desafiante e envolver algum risco, no sentido de promover
o desenvolvimento de novas capacidades, sem nunca pôr em
causa a sua segurança. Deve ter em conta as suas características
individuais. É bom deixar a criança escolher aquilo
que mais gosta de fazer, sem deixar de ter um papel activo nessa
escolha. E nunca esquecer que, principalmente no caso dos bebés,
o brinquedo não vai ter necessariamente a utilização
para a qual foi previsto, vai ser aberto, desmontado, explorado,
e tem de estar preparado para isso.
Fonte: Institudo
do Consumidor