O Trabalho de Parto: um momento tão desejado e tão temido

O presente artigo pretende ser uma reflexão sobre o trabalho de parto, mecanismos e medos subjacentes.

O parto é um dos momentos mais esperados, mas também o que mais dúvidas desperta ao longo de toda a gravidez. Trata-se de uma situação muito peculiar de saúde, dada a influência de factores psicológicos e emocionais no seu desenvolvimento.
O trabalho de parto consiste numa série de contracções uterinas regulares e progressivas que vão dilatando o colo do útero para permitir o nascimento do bebé.
O trabalho de parto inicia-se pelo fenómeno da contracção e descentração do endométrio. As contracções variam em dois aspectos intensidade (no inicio do trabalho de parto são pouco intensas mas no fim muito intensas) e ritmicidade.
Um trabalho de parto, em regra, dura cerca de 8, 10, 12 horas e é composto por duas fases: a fase latente e a fase activa.
Os temores perante o parto dependem tanto das características como da história pessoal de cada mulher. No entanto, alguma ansiedade é comum a todas as grávidas, independentemente de ser ou não o primeiro filho/a.
Cada etapa da gravidez encerra ansiedades e temores típicos. No primeiro trimestre, a futura mamã deve enfrentar o medo de um eventual aborto espontâneo, com a consequente perda da gravidez. No segundo trimestre os temores mais intensos estão adormecidos para reaparecerem novamente com o começo do último, desta vez, relacionados com o temor à morte, à dor e ao “esvaziamento”.
Durante nove meses mãe e bebé foram estabelecendo uma relação, estando próximo o momento do parto a mãe tem vontade de conhecê-lo, de tê-lo nos braços, de dar forma e rosto a uma imagem largamente representada, esperada e fantasiada. Mas ao mesmo tempo, esta etapa final enche-a de sentimentos de temor e incertezas. Para a mãe o momento do parto não só implica reviver o próprio nascimento, quando foi separada da sua mãe, como também antecipar que em breve deverá separar-se desse filho que transporta dentro do seu ventre. Surge assim o aspecto mais traumático: a “angústia da separação”, fonte de quase todas as angústias posteriores que hão de aparecer ao longo da vida.


Estes sentimentos, que se manifestam através da tristeza pela perda da barriga, representam o começo de um duelo: no momento do parto “ganha-se” um filho, mas “perde-se” o estado da gravidez. Paralelamente, experimenta-se uma sensação de esvaziamento, e sobretudo, do temor por enfrentar esse desconhecido que é o filho, e a incerteza de se será ou não capaz de enfrentar a dura batalha que é a maternidade.
O medo da dor é outro dos grandes fantasmas relacionados com o parto. A frase ancestral “parirás os teus filhos com dor” ainda permanece na cabeça de muitas grávidas apesar dos grandes avanços conseguidos nas técnicas de analgesia e anestesia, bem como o curso de preparação para o parto.
Em suma, em todos os partos se produz uma certa quota de dor física, que cada pessoa experimenta de maneira pessoal, no entanto, além das angústias e dos medos, não podemos nunca esquecer que o parto se constitui como um processo natural e maravilhoso, para que a mulher se preparou durante nove meses. Assim, chegado o momento, ignore os medos e receios e usufra de uma das experiências mais fascinantes da vida.

Vera Abrantes
Psicóloga Clínica
vera.abrantes@netcabo.pt

 

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